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ÍNDIOS XOKLENG NO ALDEAMENTO EM JOSÉ BOITEUX EM 1914



" JÁ ACABOU A ÉPOCA DE ACABAR : AVANÇA O VALENTE !"
Quando Cabral chegou ao Brasil,onde hoje é Santa Catarina viviam os Guarani, os Kaikang e os Xokleng, sendo que os primeiros vestígios de comunidades humanas datam de 5.500 anos. Para os Xokleng, a terra conhecida chamava-se La Klãnõ, quer dizer “Território dos Caminhantes do Sol”, ou “Da gente que vive sob o sol”. Eles são do tronco linguistico Jê e, estudos feitos pelo antropólogo catarinense Silvio Coelho dos Santos,viviam divididos em três grupos. Um deles circulava pela região do Vale do Itajaí, outro na cabeceira do Rio Negro , na fronteira com o Paraná, e o terceiro, no sul, próximo a Tubarão. Eram nômades, caminhavam pelo território em busca de caça e pesca. Seu centro vivencial se dava em torno da mulher. Ela decidia onde parar, descansar suas tralhas domésticas e fazer o fogo. Ali o grupo então permanecia por alguns dias. Viviam no tempo e só construíam abrigos nas épocas de chuva. Seu espaço de andanças na busca da caça cobria desde Curitiba, até Porto Alegre.Por conta da proximidade com o mar os Guarani foram os primeiros a serem encontrados pelos brancos. Passaram a ser capturados para mão de obra escrava e quase foram dizimados. Já os Kaigang e os Xokleng só foram vistos bem mais tarde quando os paulistas iniciaram as rotas de comércio com o Sul, por volta de 1728, portanto, mais de 200 anos depois da conquista.Quando viam os brancos ocuparem seu território, os Xokleng resistiam bravamente, passando a ser conhecidos pela valentia. A região ocupada por esta etnia era das araucárias, para eles tinha importância fundamental. Toda sua alimentação era o pinhão, é bem provável que tal qual os Mapuche, da Argentina e Chile, também moradores de terras de aruacária, estes espaços fossem considerados sagrados.
Os Xokleng tinham uma longa tradição guerreira, uma vez que viviam de escaramuças com os Kaigang e a presença dos brancos ia, inviabilizando a coleta de alimentos. Sem a prática da agricultura, guerrear com os invasores passou a ser vital para os grupos originários. Uma coisa levou a outra, e o governo também decidiu proteger as terras. Cada vez mais os indígenas ficavam encurralados, uma vez que não tinham para onde fugir. Assim, exército regular e os bugreiros iniciavam a “civilização”, como eles mesmos anunciavam nos jornais da época. Nada mais era do que o massacre sangrento de famílias inteiras dos Xokleng. O índio era visto como um obstáculo deveria ser transposto em nome do progresso .
A “pacificação”
No início do século XX, depois que grande parte do território dos Xokleng já estava loteado um expressivo número de indígenas mortos, em 1914 dá-se a “pacificação”. Naqueles dias,então República tinha o índio como um “problema nacional” e no começo do século XX , Rondon havia iniciado a integração do indígena à vida brasileira. Em 1910,cria o Serviço de Proteção ao Índio, tendo como lema de Rondon: Morrer se for preciso, Matar nunca!
Em Santa Catarina a história oficial conta de um jovem Eduardo Hoerhan, que havia assumido o SPI e buscava um encontro com os Xokleng para acabar com as escaramuças entre indígenas e colonos. A proposta era pacificar e aldear os Xokleng para que as comunidades criadas nas terras originárias pudessem produzir e viver em paz. Dos desejos dos índios ninguém quis saber. E assim, contam os livros que depois do“namoro”, com conversas (Eduardo arranhava a língua dos Xokleng) e com a entrega de presentes, ele atraiu os indígenas e pelos menos uns 400 deles passaram a frequentar o chamado “Posto de Atração”. Mas, os “bugreiros” continuaram a atuar, muitos grupos de indígenas vagavam pelas florestas e até os anos 40 ainda se avista um ou outro resistindo ao aldeamento.
Foi no ano de 1918, que Hoerhan chegou a Ibirama com um grupo de 200 Xokleng e foi ali que se demarcou onde a comunidade passasse a viver. Naqueles dias, conta Silvio Coelho, os chamados “botocudos” eram como bichos no zoológico e de todos os cantos do estado vinha gente para vê-los, acuados e tristes, finalmente pacificados. Assim, de Caminhantes sob o sol, nômades e livres, os Xokleng passaram - a sedentários e dependentes da vontade governamental.
A voz Xokleng
Convidados pelo Grupo Livre de apoio aos Povos Indígenas de Santa Catarina e reunidos em Florianópolis, em dezembro de 2009, os 18 caciques da área Xokleng La Klãnõ, apresentaram outra versão da história, desde as suas memórias mais antigas. Conta o diretor da Escola Bugio, José Cuzung Ndilli, que a chamada “pacificação” não foi conseguida por Hoerhan, como diz a versão oficial. “Foram nossos líderes que, em 1909, se juntaram e decidiram que não dava mais para ficar guerreando com aquela gente que chegava. Foram eles que decidiram fazer o contato com os brancos, indo na casa de Hoerhan. Foi nosso povo que decidiu pela paz. A gente confiou nos brancos e somos rejeitados até hoje”. Dos 400 que fizeram contato, sobraram apenas 120. “Hoje, nós somos 2.000 índios e continuamos crescendo. Já acabou a época de acabar. Nós somos um povo difícil de extinguir”.
Ndilli diz que os Xokleng ainda sofrem com a perseguição e o preconceito. Isso sem falar na falta de respeito do governa na construção da Barragem Norte, em José Boiteaux, nos anos 70, que alagou terra e diminuindo o território. “A gente sabe que as lideranças da época aceitaram a Barragem, mas como foi o processo? O branco sempre quis ser superior ao índio e não leva em conta as nossas necessidades. Ele sabe que a terra é nossa, mas tem essa ganância”.Em 1991, os Xokleng chegaram a tomar o canteiro de obras da Barragem .O professor Ndilli insiste que os Xokleng vão seguir lutando pelos seus direitos, pelo cumprimento das leis. Em 2014 serão os 100 anos do contato. Que vamos fazer, festa ou o quê?”
Livai Paté,representante dos Xokleng no Conselho de Saúde: Essas terras eram nossas, agora temos de ficar confinados em lugares ruins. Vomble Paté:" A gente vem aqui na universidade e não aparece estudante. Esse Eduardo (Hoerhan, o pacificador) não significa nada pra nós. Antes eles matavam com arma de fogo, agora matam com a caneta”.
A vida em movimento
Enoke Popó é Cacique e conta que os Xokleng se dividiam em vários grupos e tinham como modo de vida a coleta e a caminhada pelo território. O pinhão era o alimento principal. Na época da colheita eles ajuntavam tudo, para durar até a próxima safra. Depois, coziam e armazenavam embaixo da terra, enrolado em folhas, o que garantia a sua perenidade. O local mais abundante era onde é hoje Vítor Meireles. A gente circulava por um território de 34 mil hectares e agora estamos confinados num espaço de 14 mil. Essa terra é nossa. É um direito nosso e queremos manter”.
Enoke lembra que foi difícil para o Xokleng sair da vida nômade para a sedentária, foi difícil aprender a arte da agricultura. E quando eles conseguem, vem o governo e tira a terra, como foi na época da construção da Barragem. As melhores foram alagadas e eles ficaram com as ruins. Não é sem razão que eles procurem se manter mais com o artesanato ao plantio de alimentos. Sem a tradição ancestral e sem terras, fica difícil virar agricultor.
Os jovens estão saindo, vão trabalhar de empregado na cidade, e aí perdem o costume”.
Sobre a religiosidade Enoke conta que todo o povo Xokleng é evangélico. E Silvio Coelho, no seu livro sobre os Xokleng,mostra como esta igreja acabou sendo responsável pela retirada de muitos do vício do álcool que havia sido contrabandeado para as aldeias para que o branco melhor dominasse.A língua a gente preserva”.
Os Xokleng vivem na região de José Boiteux, em Santa Catarina, numa terra de 14 mil quilômetros quadrados. São 18 aldeias que perfazem o território La Klãnõ, com 88 famílias e 2.000 pessoas.
Planejamos nossa ideia na nossa língua, mas depois temos de falar em português. O povo Caminhante do Sol conseguiu vencer os bugreiros, a invasão, o medo, a dor. Saíram de 120 almas em 1920 para 2.000, hoje.Naquele silencioso jeito de ser, eles vão gestando o amanhã esperado.
Que ninguém se engane, o valente povo Xokleng, que dominou as florestas de Santa Catarina, segue em pé, e avança!...
Por Elaine Tavares - jornalista - América Latina Livre - http://www.iela.ufsc.br/

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